quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Continuar



 Tudo são escolhas. E colheita. 

Você escolhe a cada instante e o próximo instante é construído com base nisso, ininterruptamente, cegamente muitas vezes, mas sem exceção alguma. 

Não tem o outro responsável, não tem destino soberano ou algoz invisível querendo te destruir, não tem nada maior que seu próprio livre arbítrio no escuro deste mundo material construindo uma estrada tijolo por tijolo, ou seria escolha por escolha. 

Quero descer! Quero parar! Quero voltar ... Não tem. Sem chance. Só pra frente. 

Aliás... Isso é o que não se escolhe, isso é imposto. Só pra frente. Sem parar. 

E nesta corrida sem muita direção ou placa de aviso (ou tem, mas não vemos porque estamos preocupados em não cair, em planejar, em lamentar... ) construimos uma história inteira. Primeiro corremos muito, planejamos muito, acreditamos muito... Tropeçamos, levantamos e nem sentimos quase a dor. 

Com o tempo o ritmo do caminhar vai diminuindo, a velocidade fica mais lenta e podemos apreciar melhor o caminho, e nossa condição nele. 

Aos poucos vemos o que fizemos de nós, de tudo, ao redor. Mas não para refazer, porque não há o botão "voltar" ou " refazer" , mas para poder pisar com verdade a partir dali, sem muita ilusão. 


E aí me vem a mesma pergunta... 'quem sofre mais, o iludido ou o desiludido?" 

E me vem outra mais recente... "O que sobra depois da desilusão?" Verdade? 

É. Verdade. 

E o que fazer com ela? 

Seguir. Isso é compulsório. Como? Por quê? Para quê? Para onde? 

Sem as ilusões são questões difíceis demais pra se responder com segurança. 

Mas seguimos. Isso não depende de nós. 

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Ser Megera

Megera... me coloquei a pensar profundamente sobre a questão. Nos dias de hoje, na cultura atual, quem é a megera realmente e não na ficção? 
Quem é na maioria das vezes chamada assim? Qual mulher recebe este título pela vida? Qual a maldade horrível que elas tem feito?

E abrindo meus sentidos escutei a resposta... 
Na grande maioria das vezes ela é aquela que incomoda, que não acomoda o outro, que não se adapta ao que pensam dela e busca a si mesma no mar revolto dos relacionamentos.

Megera é a que ousa ter um lugar no mundo, um espaço pessoal criado por ela mesma, e não aceita ocupar mais o espaço que a colocaram, mesmo que tenha sido criado com justificativa em amor, cuidado, medo ou necessidade. Para a Megera isso não importa pois ela só quer criar o próprio espaço e ter ele respeitado como respeita o espaço que os outros decidiram se dar, mesmo que ela não concordasse com muitas escolhas.

Megera é a que diz "não" bem no momento que esperavam dela um "sim", a que existe e resiste, que olha para si quando todos querem desviar a atenção para suas próprias necessidades.  Ela se dá o direito de existir inteira sem pedir licença para a dor, preocupação ou problema do outro. Ela negocia com clareza e justiça, não se anula. Megera não quer mais gastar seu tempo apenas cuidando de uma relação enquanto o outro apenas cuida de si mesmo e acredita estar na mesma relação, seja qual for.

Ela não é o que o outro acredita que ela seja, ela é o que ela é.

Megera não acolhe tudo, entende tudo, não oferece mil chances e mil perdões para a mesma falha, não se adapta sozinha, não finge que não doeu, não prioriza a dor do outro sobre a dela, dor que ela sabe que, se ela não priorizar, ninguém nunca verá.

Megera impõe limites, e o mundo não gosta de se sentir limitado, no máximo aprecia criar seus  limites em sua própria versão, ignorando que tudo pode ser muito diferente do que as visões ao redor tem a capacidade de entender. Ela não cabe na caixa e não se culpa por isso.

Megera quer ser olhada, observada, entendida, da mesma forma que olha, observa e entende, Ela não quer ser manipulada pelas dores que os outros criam sem parar, inundando sua vida de "não vi", "não posso", "não consigo", "me desculpa" sem nenhuma ação de mudança a seguir, tirando ela do protagonismo de sua vida. Ela não quer preencher sua vida com as dificuldades do outro, ela quer ter uma vida sobre ela mesma.

Faz parte do titulo a escolha de não ser manipulada pelo jogo incessante do outro, de tirar dele o tempo, espaço e energia que nunca deveriam ter sido dele na vida dela, e faze-lo receber apenas o que conquista com suas escolhas e mudanças pessoais, e isso gera revolta. A Megera sabe que será maltratada por isso. Mas ela também sabe que o contrário a faz maltratar a si mesma, então fica em paz mesmo na guerra.

Mas a Megera quase nunca nasceu Megera. 

O que ela esconde - ou que fingem não ver - é um longo caminho de perdas, dores, traições, abusos, frustrações, um caminho cheio de cansaço por dedicação, compaixão e doação desmedidas para chegar até ali. No passado de quase toda Megera há um longo caminho de boazinha percorrido. 

Mas esta jornada sempre chega à encruzilhada final: ser tudo sobre si ou sobre o outro. Tem um momento onde não se pode mais adiar a escolha. Quando ela tem sabedoria, se torna Megera. 

Ela nunca mais voltará atrás. Megeras não se arrependem de, finalmente, se escolher.




sábado, 10 de dezembro de 2022

Filha por um dia

 


Dói demais. 

É como se o mundo todo se tornasse tão difícil, diferente e incoerente ao ponto de não conseguir caminhar mais com a certeza antiga. 

Era simples: eu amava do meu jeito, as coisas fluíam, e continuava. Alguns desafios, percalços, enfrentamentos, aprendizados, e continuava. Mas de repente as coisas não eram mais assim. Minha armadura não era mais tão impenetrável, minha força tão intensa, talvez minha vontade deixou de ser tão convicta. Afinal, para que tudo serve nas relações, nas famílias, na estrada da vida? 

O quanto vale priorizar algumas relações e seus preços? O quanto custa ser querida, amada e acolhida? 

Depois de tantos anos de perdas nas relações, de precisar escolher entre valores e pessoas, de olhar a mim e aos outros sem filtros, agradeço melhorias que sinto dentro de mim, mas não posso dizer que não doa muitas vezes ainda. Não consegui ainda ser um ser estelar independente, que entregou sua linhagem terrena e assumiu um posto livre no planeta. 


Somos educados a viver entre os "nossos" e a acreditar que eles sempre seriam estrutura, força e segurança. Ver que isso simplesmente não se aplica na sua jornada, que foi tudo uma grande ilusão que causou tantas feridas e crescimento, que mesmo que funcione para a maioria, não é para você... Dói. 

Mesmo que eu entenda cada passo desta desilusão, mesmo que não tenha nenhum passo que me arrependa, mesmo que sustente todas minhas falas, posturas a atitudes porque foram baseadas em verdades profundas, não posso dizer que não doa muitas vezes. 

Hoje doeu. Hoje eu quis pertencer. Hoje eu quis estar entre aqueles que teoricamente seriam minha rocha. Mas estou aqui, na ilha de Mãe Kuan Yin agradecendo sua misericórdia e compaixão. Deitei nas águas de Nanã e aceitei suas curas de lama na alma. Pedi e recebi, então agradeço, mesmo tão triste. 


Eu sei que amanhã estarei em pé, disposta a aprender o próximo passo, com a força de Miguel e El Morya, mas hoje preciso apenas do sorriso de Mãe de Kuan Yin e Nanã. Encher meu coração de filha. Sim, as vezes - muuuuuito as vezes - sou filha de alguém. 

Amanhã volto ao olhar no horizonte, buscando e alcançando, acolhendo e motivando, facilitando o outro e feliz por isso.

Hoje é dia de colo. Ainda bem que tenho, mesmo que seja tão sutil aos olhos, é potente na alma. E é a alma que sangra. 

Então está tudo certo. 

domingo, 25 de setembro de 2022

Seguindo...



Eu sigo. 

Continuo.  

Respiro, inspiro, tento soltar, e ainda assim existir. Mas mesmo assim cada dia é uma jornada imensa na direção de um reencontro. Ou renascimento, talvez.

Minha mente mantém os antigos registros de verdades, vivências, lutas e curas geradas. Infinitamente controlada por eles, se torna meu grande desafio diário. 

Que diria? Eu, a mentalmente sã, a funcional e lógica, a acertiva lúcida, dizendo que a a mente me prega peças. 

A humanidade se questionando lá fora se poderia controlar ou não uma Super Inteligência Artificial, sendo que não controla nem mesmo a própria mente... Onde está a dúvida minha Deusa? 

As "Inteligências", sejam as naturais ou artificiais, apenas armazenam o que já viram e tiram conclusões futuras baseadas em fatos passados. Apenas isso. Não há criatividade, não há revolução, não há o Novo. Não há Cura. 

Para sobreviver, me proteger, não sofrer,  alcançar metas e ser operacional e útil, deixei meu campo mental tão vasto e poderoso, que sinto tudo permeado por ele, como uma grande IA. Mas é minha. 

Ela manda. Ela reage, ela cria. Ela chegou a conclusão de que outra forma de fazer cria dor, uma após a outra, e dor cria fraqueza, frustração, tristeza... E este é um lugar muito desconfortável de estar. Neste lugar precisamos de resgate, e sinceramente... Ele pode não vir. 

Então, continue. Caminhe. Siga. Enfrente. Supere. Mantenha. 

Eu mantenho. Mas até onde? Para que mesmo? Com que norte? 

Nublado. 


O mundo mudou demais, verdades antigas foram transformadas, e nada mais pode ser visto como foi. A mente fica insegura. Afinal ela se baseia no que já viveu, e se isso não conta mais... O que conta? 

Não sei responder com certeza. Para a mente não sei. Apenas sei o que conta para a alma.

Leveza. Liberdade. É o que a alma clama sem parar, debaixo das camadas mentais duras e tão inflexíveis. A alma precisa respirar. 

A minha respira pelo som do Espírito, e quando O encontra, vê a Luz, e tudo está bem. Tento segurar a sensação o máximo que posso, mas inevitavelmente quando aterro os pés na matéria, tudo se desfaz. Volta a dureza, o foco, a desconfiança criada por tantas frustrações, abandonos e perdas, e a mente assume seu papel superprotetor. 

Uma dinâmica doente e improdutiva, tenho completa consciência disso. Mas confesso que neste limite de forças, está sendo desafiador resistir, sentir, criar ou soltar a tal dinâmica instalada. 

Meu corpo emocional se comporta como um bichinho machucado sentindo tanta dor que se  torna raivoso, afasta até a ajuda. Tudo que ele quer é não sentir mais dor. Só isso. E qualquer movimento dói ... Até o de cura.

Neste momento invoco a Grande Mãe. A mentora da Vida em Gaia, a Senhora de Todas, e nas Rodas de Irmandade eu suplico compreensão. 

Uma onda de Luz se faz, minha alma se desprende, e entro na Ilha de Mãe Kuan Yin, navegando nos mares revoltos das emoções descontroladas e intensas, e aporto na sua praia pedindo abrigo. 

Ali, todas somos recebidas. Ali, somos apenas suas Filhas. Ali, o peso pode ser deixado de lado. 


Peço para encontrar minhas fragilidades e abraçar todas elas como quem abraça uma grande irmã. Sentir que são portas do Sentir, que me dão beleza e cor mesmo na escuridão e que são meu caminho de Cura. 

Descansar. 

Apenas isso. 

O que será depois, ainda não sei, mesmo porque saber é função da mente e aqui ela não é nem ativada. 

Fluirei então, recarregando minha alma, tentando fechar minhas chagas e reencontrar meu Ser completo, com todas as suas partes. Preciso muito da Mãe. Ela me acolhe. 

Não sou apenas o que gero e ofereço, sou o que sinto e vibro, e este caminho de Consciência agora precisa ser refeito. 

Jornada. Ninguém larga a mão de ninguém. Vamos todas juntas para o reencontro com nós mesmas.  Gratidão. 

E assim é. 

quinta-feira, 14 de julho de 2022

A jornada da Heroína


 Tao tão cansada. 

Mas tão tão mais sábia.

Cheguei no limite do dar. Cheguei no ponto que oferecer dói tanto que fica impossível fazer sorrindo.

Ver a dor ao meu redor, olhar o coração fechado e contorcido ao meu lado pedindo socorro sempre foi algo insuportável para vivenciar, algo impossível de ignorar. 

Sempre abri as entranhas para encontrar algo que pudesse sanar as dores que via ao meu redor. Com o tempo fiquei mestra em encontrar qual parte de mim poderia ser a doação da vez. E funcionava. 

Pedaços meus que iam sendo arrancados e oferecidos, com uma sensação incrível de satisfação pessoal e dever cumprido. Minha alma se completava em perder algo que fosse a cura do outro. Era como se o meu poder estivesse em ter algo que sanasse cada problema, ferida, expectativa, e nunca eu diria não a essa sensação de poder. 

Vasculhar meu coração, minha mente, meu espírito, e identificar o antídoto para o outro significava ter valor, ser importante, cumprir meu dever. 

De que importavam os buracos que se abriam em mim? Qual a importância do vazio que se formava ao longo do tempo que eu nunca era o foco , o propósito da vez?

O importante era o sorriso que eu criava com minha "capacidade". A gratidão, a alegria e as mudanças que iam acontecendo nas jornadas de cada pessoinha que eu tocava...isso era o alimento, a justificativa, a explicação, a razão de tudo. 

Mas fiquei para trás. Aos poucos fui ficando para trás. 

As vidas mudavam, se alavancavam, se recriavam... As pessoas renasciam em novas consciências, e era lindo. Mas eu ficava. 

Com o tempo eu não me sentia mais tão poderosa. O valor parecia não significar a mesma coisa. Meus buracos eram tão numerosos que já não podia contar, nem curar com equilíbrio. 

Eu doía. Eu chorava. 

Fiquei dura, fiquei fria, para suportar e seguir. Depois fiquei nada. Mas continuei. Sempre havia o que oferecer. 

Eu fui enquanto havia força. Eu fui enquanto havia alguma luz. Mas acabou. 

Agora tudo me parece sem sentido algum, como um livro escrito em língua que não conheço. Vejo as pessoas muito, muito melhores do que eu as encontrei, e mesmo tão feliz por elas, isso não me ancora na minha verdade mais. 


Preciso do chão, preciso dos meus pedaços infinitos de volta, preciso de mim. Mas não há pra quem gritar. Preciso chamar por mim mesma, pela minha Mestria tão perfeita em curar dores. Poderia ser a minha dor a prioridade da vez? 

Poderia eu mesma usar minha força para trazer algo que preencha este vazio, este nada, buscar luzes na escuridão, e fazer um caminho de vagalumes para minha alma caminhar? 

Poderia eu criar sorrisos dentro de mim como consigo em quem toco? Poderia eu tocar minha alma com o mesmo carinho e verdade? 

Espero que sim. 

É o que busco agora. Vejo cada um em sua estrada e vibro para que sejam felizes e prósperos, assim tenho mais calma para lutar minha batalha pessoal. A batalha de volta a mim mesma, seja eu quem eu seja, já que esqueci neste imenso tempo olhando apenas para fora. 

E sigamos mais uma vez. Que a Deusa esteja em mim.



A todas as ATHENAS incansáveis... Amor e Liberdade a vocês ❤️

sábado, 20 de novembro de 2021

O Portal Dourado


Eu estou me despedindo.

Olhei para os lados, e percebi que não haveria acenos. Somente silêncio. Sentei então por um instante, no final do caminho. A estrada terminava ali, era o último metro. Depois dela, o imenso Portal Dourado se abria, mas era um Portal sem volta. Eu tenho certeza de que, depois que o passasse, nada que eu via estaria ali para me esperar em um regresso. Não haveria regresso.
Existem viagens sem volta, e aceitar esta verdade é a única forma de continuar seguindo em frente.
Sentei na pedra mais alta, olhei o por do sol vermelho e intenso, e entendi que o dia - e uma era - acabava ali.O Silêncio é quente e doce, e as aves voam para seus ninhos depois de um dia inteiro de liberdade e busca. A brisa acaricia meu rosto e parece ter feições, parece sorrir para mim.
Acabou.
Olho para minhas mãos e não há mais nada. Tudo que carreguei foi ficando nas paradas, nas encruzilhadas, onde precisei escolher. Meus pés tocam a relva verde, macia e úmida, e sorrio para Gaia. Estou descalça, estou nua. Tudo foi ficando para trás, e aos poucos nem me lembro do que deixei.
Meus cabelos em trança formam meu véu, minha túnica, meu manto. E só.
Eu fui muitas coisas até ali.
Fui filha, fui irmã, amiga, amante, companheira, fui mãe. Fui aluna, colega, fui mestra. Fui donzela, mulher e anciã. Fui feroz, fui doce, fui errada, fui plena. Abracei, me perdi, entreguei, morri. Renasci, busquei, me enganei, cresci. Acreditei, andei, parei, fui traída, chorei. Tive, e perdi.
E agora, sentada no final da estrada, olho minhas mãos livres, meu ventre pulsando, meu peito em Luz intensa, e acredito que finalmente, venci. Venci a mim mesma. Venci meus apegos, minhas fraquezas, meus medos e minhas ilusões. 
Não que tenha sido fácil e indolor, mas eu aprendi a abraçar a dor. Eu a compreendi. Aceitei sua linguagem dura, seus enigmas, seus dons. E aos poucos ela se transformou em mel, se espalhou pelo meu corpo, e foi curando as feridas. 
Eu nunca poderia imaginar que ela seria meu néctar sagrado. Era ela o tempo todo, ali, a me cutucar, dizendo o que precisava mudar, e eu passei anos querendo apenas que ela se fosse. Ela não foi, graças a Deusa. Ela ficou, cutucou, doeu, esmagou... até eu aceitar conversar com Amor. Ela apenas queria Amor. O meu Amor.
Quando resolvi olhar minha dor, ela era um mar revolto. Tantas emoções em conflito, tantas frustrações, mágoas, rancores. Mas eu a amei. Amei porque entendi que era nela que estava a parte mais pura de meu ser, meu tesouro escondido. E seguimos. Foram anos a fio.
Hoje cheguei no último ponto da estrada. Sinto as luzes do outro lado do Portal esperando por mim. Sei que será maravilhoso.
Mas me sentei aqui um instante. Havia ainda algo a fazer, porque ainda não conseguia seguir. Não estava pronta.
Fechei os olhos, respirei profundamente e me perguntei "Por que não posso seguir? O que ainda preciso deixar?"
Meu peito começou pulsar mais forte, e meu coração disparou. Fiquei sem ar por alguns instantes, e logo percebi algumas luzes saírem do centro do meu ser. Eram amores.
Amores que cuidei,  que cultivei como sagrados. Corações aos quais me liguei, e criei a expectativa infantil de tê-los para sempre.Se quisesse seguir, eles teriam que ficar. 
Então senti novamente a minha amiga dor. As luzes saíam doendo fininho do coração, e eu as olhava, via os rostos queridos dentro delas, e sentia o peito rasgar. 
Eu via os olhares nos rostos, e sabia que não me viam. Viam algo antigo, uma imagem que deixei para trás há muito tempo, e eram incapazes de me ver. Pensei se eu os via com nitidez, ou se era igualmente equivocada, quem sabe... Mas estavam lá.
Estou aqui sentada, com o peito latejando em dor, cercada pela lembrança de pessoas que amei profundamente, e que hoje não me conhecem mais. Eu preciso seguir.
Mas como, se não sei o que fazer? Algumas já havia me despedido nas curvas da vida, e nem tinha mais notícias delas por muito tempo. Por que estavam aí ainda? E por que doía tanto?
Foi aí que percebi as falhas no meu corpo de Luz. Havia buracos deixados pelas luzes que se soltavam, e eles que causavam tanta dor. Buracos em mim. Vazios.
Respirei várias vezes, entrando em contato com minha essência, como já me acostumei a fazer tão bem. E sorri.
São meus. Meus pedaços. Eu havia liberado as pessoas, me desligado delas, aceitado nossas escolhas e caminhos diferentes. Eu havia seguido, e aprendido a amar o Agora e quem Eu Sou. Mas havia algo que não fiz.
Eu dei poder àquelas pessoas. Eu dei poder àqueles relacionamentos. Em cada um havia uma parte minha que eu havia perdido. Eu descobri outras partes, maravilhosas, desabrochei e cresci. Mas somente poderia atravessar aquele último Portal inteira. E eu não estava inteira. Era por isso que não conseguia seguir.
Parei então com muito Amor, olhei para cada luz. Agradeci por terem cuidado de minhas partes, mas que agora eu precisava delas de volta para seguir em frente. 
Acredito que algumas nem sabiam que carregam algo meu com elas ainda. Outras estavam muito ligadas à energia que eu reinvindicava.
O grande poder que dei a elas foi de me julgar. Eram pessoas que admirava, que respeitava, pessoas que amei, e dei a elas o poder de julgar meus atos e minhas escolhas. Eram minhas referências, meus mestres, meus guias. Alguns com Amor, outros pela dor, mas todos foram meus sinais quando parava para pensar sobre mim mesma. 
Agora eu precisava abandonar meus "Mestres" da vida. O que eles pensavam ou não sobre mim agora não era importante. O que eu pensava sobre seus julgamentos para me compreender e me valorizar não fazia mais sentido.
Então fui ordenando...
"Recebo de volta meu poder de julgar o meu valor como ser."
"Recebo de volta meu poder de julgar os valores que devo seguir."
"Recebo de volta meu poder de julgar o meu coração."
"Recebo de volta meu poder de julgar meu sucesso."
"Recebo de volta meu poder de julgar meus merecimentos."
"Recebo de volta meu poder de julgar como e quando gastar minha energia."
"Recebo de volta meu poder de julgar minha beleza."
"Recebo de volta meu poder de julgar minha alegria."
"Recebo de volta meu poder de julgar com quem devo me compartilhar."
"Recebo de volta meu poder de julgar e encaminhar meus dons."
"Recebo de volta meu poder de julgar a minha sabedoria."
"Recebo de volta meu poder de julgar meu poder."
"Recebo de volta meu poder de julgar quem EU SOU."
"Recebo de volta meu poder de SER quem EU SOU livre de qualquer julgamento."

"E agradeço profundamente o aprendizado que tive com cada uma das suas energias."


Elas então se esvaziaram aos poucos, uma a uma, a energia voltava para mim translúcida e colorida, e uma pequena esfera brilhante se ia, até eu perder de vista.

É por isso que estou sentada então, me despedindo. A cada esfera que se vai, um pedaço meu se refaz. Eu choro, às vezes baixo, às vezes compulsivamente. O retorno da energia faz meu peito vibrar intensamente, fica até difícil respirar.Mas aos pouco me acalmo. 

Quando a última esfera se vai, fico em silêncio. O sol quase se foi e a noite começa a chegar. Vejo a primeira estrela e a Lua Nova me cumprimenta. Eu adoro a noite. 
Olho ao redor, a escuridão me acolhe. Está tudo bem. Finalmente.
Levanto então, solto meu último olhar com lágrimas nos olhos para a paisagem que foi meu mundo há éons, e atravesso o belo Portal Dourado.
"Gratidão!".



Na Montanha Azul

Era para ser incrivel. Era para ser lindo, profundo, intenso, rico... Não digo perfeito, porque já tenho idade para saber nada seria assim. Mas era para ser muito mais do que é.

Quando mergulho na alma, na busca incansável de respostas reais, encontro espelhos turvos voltados para mim mesma. Imagens distorcidas da minha alma, meu sorriso, do meu olhar, todos refletindo com a mesma dureza de um punhal afiado. Tudo, absolutamente tudo, é criação minha.

As ideias absurdas de felicidade plena, as noites incríveis ao luar, os olhares incansáveis dizendo milhões de palavras silenciosas por segundo que poderiam estar cravados em apenas uma frase de Amor. Tudo são criações minhas, tortas, sem nexo, contendo pedaços de realidade, montadas pela minha ingênua ideia de romance. Reflexos de um coração sem rumo, sem voz, sem lugar, nômade no mundo humano, sem reais conexões ou um lugar de outra alma realmente para chamar de lar. Não existe isso de lar no coração de outro alguém. Isso eu aprendi. 

Vaguei em ideias e ideais, entre surtos, choros, êxtases e momentos de profunda paz. Conheci parte do Todo, rodei em círculos procurando desfechos para tantas histórias, e nada era real. Eram somente imagens minhas refletidas pela vida afora, completamente feitas do que não posso controlar. 

Olhando de fora, na montanha azul do meu céu, a dinâmica me parece tão simples que até me ofende... A Luz sai em raios intensos das profundezas da minha alma, alcançando seu ápice no farol do meu coração. Não percebo os desvios do mundo, a contaminação das ideias e valores, não considero pensamentos menores... Eu sigo meu raio com os olhos esperando desesperadoramente pelo que me mostrará. E ele chega. Toca o outro afoito e estranho, talvez até cego ou sedento, e vejo o reflexo apenas de mim mesma e meus anseios, distorcidos pelo caminho, pelo vento, pelas águas turvas do outro ser. Não reconheço nada que retorna a mim, me desespero, me frustro, me calo, me zango, me encolho e silencio. De quem poderia ser a culpa afinal?

Como culpar meu puro raio de amor tão cego pela inocência que carrega? Ou culpar os caminhos, os ventos, as águas, e a sombra que carregam dentro de si? Como exigir do outro que caminha as cegas como eu, por não refletir o que julgava ser eu mesma nele? 

Na montanha azul do meu céu paro atônita, envolvida pelo sentimento de total impotência, e sinto cada parte minha desmoronar. Vão se desfazendo corpos e cores, flores e amores, ideias, canções, poções... escorrem por mim, ou o que sobra do que fui, e se vão na missão de me libertar da minha própria ilusão. Procuro me focar no que sobra, sem me perder no que já não posso mais conter. Não quero conter. Dói segurar o que não pode ser. 

Sinto que sou menos, bem menos do que pensava ser. Não que isso seja necessariamente ruim, ao contrário, não é. É leve. 

Mas mesmo sendo muito mais fácil de ser e sentir, ainda me sinto vazia. Há uma intensidade que não consigo substituir. A leveza aos poucos me incomoda por não me levar às profundezas do meu sentir, e isso começa a me incomodar mais do que pensava. Eu não sou leve. Eu nunca fui leve. Se há algo leve aqui definitivamente não pode ser eu mesma. 

Separando o Eu do Não Eu, tirando da frente as ideias de iluminação engessadas, sinto aos poucos que sou feita de emoções intensas, de extremo frio e calor. Não sou leve, agora é uma constatação. 


Subo as montanhas mais altas na busca de um momento que justifique toda a escalada, sem medo algum. Posso viver anos nadando em mares profundos por um único beijo de amor que contenha a alma pura de alguém que vê o infinito no meu olhar e possa refletir isso no seu no segundo seguinte que pode ser o único. Ultrapasso a tempestade, luto com as sombras, congelo... mas preciso de um abraço tão quente e real que me cure de todas as feridas do caminho. E tudo estará bem.

Mas onde está o caminho? Onde está a estrada? 

Aqui na minha montanha azul, não encontrei nada ao pico, apenas uma música melancólica mas linda que parecia ler minha vida com tons altos e baixos, com harmonia perfeita. Só. 

Não encontrei braços que me abrissem uma nova Luz, olhares que me permitissem mergulhar em um segundo de alegria silenciosa, não encontrei calor. Apenas eu mesma e minha música. Minha história. 

Aos quatro cantos o grande mistério se formava e me envolvia, e ali era o fim. Respirei o mais profundo que pude, e aceitei. Parecia um tanto justo que terminasse como começou... um suspiro. 

Mesmo sabendo que tudo que vejo daqui é agora ilusão dos meus sentidos refletidos em tudo que toquei, me dei meu luto. Era irreal, mas era meu. Era eu de alguma forma, distorcida mas forte.

Aos poucos a neblina tomou conta de todo vale ao redor, e a música se tornou mais doce. Eu me sentei, e desisti. Não valia mais andar, pensar, desejar ou simplesmente olhar. Do que é feita a realidade então? 

Fiquei ali, juntando os pedaços por mim desconhecidos, e me abrindo para algo que não posso imaginar. Percebi que desta forma não crio, não projeto, não se reflete, não se distorce, não dói. Apenas é.

Mas ainda estou só. Isso ainda não consegui resolver. Vou me focar na música, talvez até a montanha em algum momento se dissolva, e eu possa caminhar em solo fértil novamente na próxima manhã de sol.

Quem sabe.