terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Um Novo Mundo

Meu corpo doía de uma forma contraditória e estranha. Apenas o lado esquerdo. Cada articulação, cada tendão. Todos do lado esquerdo.
Esquerdo. Lado do inconsciente, do feminino, do passado, da sombra. Lado da Lua. O escuro de mim.
Doía intensamente, e eu preciso admitir que sentia um conforto estranho naquela dor. A dor me protegia. A dor me estagnava, me debilitava, me truncava, sedava, me impedia. E parecia bom.
A mulher anciã que estava comigo dava uma risada que beirava o sarcasmo. Seus cabelos totalmente prateados, a pele enrugada, o vestido esvoaçante e o olhar desafiador. Era a bruxa da velhice, aquela que não se engana, que não precisa mais fazer tipo ou agradar a ninguém. A mulher da verdade: crescemos, envelhecemos, erramos, sentimos e causamos dor, morremos, e – apesar do que se pensa – continuamos exatamente do mesmo ponto que paramos. Nada de mágica. Trabalho duro e real, limpeza profunda e superação.
“Todos tem um lado feio.” Ela diz isso com um sorriso desafiador e verdadeiro. Sem dúvida. Eu preciso ver o meu.
“Libertar o que se esconde é o único caminho da felicidade...”
Eu escondo medo. Sei pelas minhas articulações que doem, pelos meus rins e bexiga que vivem sofrendo. Sei pela minha atitude dura e inflexível diante das situações que me assustam. Eu nunca corri. Eu enfrento. E para enfrentar, endureço tudo o que posso. É preciso não desmoronar. Muitos precisam de mim. Muitos. Mesmo.
Mas agora, diante da bruxa da Vida e da Morte, diante da verdade interna, sem platéia, sem máscaras, eu sinto o medo. Fragilidade até irritante, de tanto que paralisa. Congelo.
“Você precisa deixar ir!” Ela insiste. Eu hesito.
Deixar ir? Parecia totalmente improvável. Diante de uma lógica absurda me parecia óbvio que aquele medo me protegia. Ele me afastava de repetições fracassadas. Eu precisava dele.
Mas meu outro lado – o iluminado, o da sacerdotisa vívida – dizia que era ilusão. Que o medo era o responsável por todos os meus equívocos, e por cada fracasso real. Dureza esta coisa de dúvida...
Fazia poucos dias que eu havia tomado consciência disso. Eu achava que estava cansada, exausta, e precisava relaxar. Tentei de todos os modos que conheço, de cada plano de consciência, alcançar tal relaxamento, ou descanso, sem sucesso algum. Meu estoque de criatividade e sabedoria havia se esgotado. E eu ainda me sentia cansada.
Foi aí que a bruxa me encontrou. Foi aí que ela me olhou com seus olhos sarcásticos de sempre que dizem “Você engana a si mesma, mas a mim não...”. Através dos olhos dela, olhei espantada o medo instalado em meus corpos sutis... Eu tinha medo... Ainda tinha medo... Mas não acaba nunca???
Ela me levou ao topo de um vulcão em erupção, e eu olhei o poder da Mãe ali, revirando a terra, consumindo o ar, evaporando a água, no seu coração de fogo... Lugar de transformar. Sem dó. Momento de silencio e introspecção. Ela respeitou.
O medo havia se misturado às águas do meu corpo camufladamente, dissimulado como sempre, não se deixando perceber facilmente. Havia bagunçado minhas funções de limpeza, de troca de energia, e acumulado líquidos indesejáveis por todo o corpo. Mas agora eu podia ver... Não era raiva, nem mágoa, nem tristeza. Puro medo de sofrer novamente. Puro medo de perder o que conquistei. Puro medo.
Nada a perdoar. Nada a esquecer. Eu apenas guardava tudo aquilo como lembrança atenta de algo que não queria repetir. Mas me envenenava.
“Liberte!”
Não conseguia. Eu percebi decepcionada que ainda estava amarrada a ele.
“Para que acredita que ele serve?”
Apesar de idiota, minha lógica era clara. Enquanto eu tivesse medo, eu sabia exatamente como me afastar de pessoas e situações que me causavam dor. Enquanto eu não esquecesse o quanto me fizeram sofrer, eu não sofreria novamente. Enquanto eu guardasse cada atitude que me causou dor, eu poderia justificar minhas atitudes e reações sem culpa na minha defesa.
Eu estava embolada em uma roda sem fim, e isso me assustou. Eu não tinha raiva. Eu apenas queria não sofrer mais. Só isso. Queria minha vida apenas para mim, não ser invadida, sugada, desrespeitada, usada, manipulada, coagida, e sentir a dor desta falta de limite. Mas isso me endurecia. E me causava outra dor... Troca burra.
Fisicamente, eu travava meu maxilar, e meu lado esquerdo doía. Ombro, cotovelo, pulso, joelho e tornozelo. Apenas meu quadril se salvava. Achei isso importante, mesmo sem entender ainda.
Concentrei meu pensamento no alto do vulcão. Contemplei a energia poderosa da Mãe e me senti pequena, minúscula, diante dela. Foi bom. Bom se sentir minúscula às vezes. Gente minúscula não precisa estar a serviço de ninguém...
Percebendo minha angustia, a bruxa se compadeceu. “Precisamos limpar sua mente primeiro. Ela que acredita em bobagens. Depois que curá-la, poderá libertar sua alma, seu coração, sem problemas... Seu coração é bom demais. Puro demais. É sua força. Mas você ainda acredita no contrário. Não é a bondade que te faz sofrer. São as regras...”
Valores. Regras. Sempre as benditas verdades mentais.
Qual o valor que me acorrenta desta vez?
Dizer não a alguém. Deixar que o sofrimento seja vivido sem intervir. Permitir que todos vivam a roda da vida que geram e recebam suas colheitas reais. Não fazer nada a respeito. Isso me parece certo. Não penso o contrário... então, o que pode ser?
“...continue...”
Continuei...
Lidar com o retorno disso. Lidar com as decepções das pessoas diante da minha postura. Lidar com o fato que não concordam e me julgam individualista, egoísta, dura ou insensível.
Uma faca atravessou meu peito. Comecei a chorar. Não, eu ainda não podia lidar com isso.
Eu acredito em justiça. Eu sei que precisamos merecer o que plantamos e queremos colher. Eu sei que temos que cativar para ter. Eu sei que ninguém é obrigação de ninguém. Eu sei que tenho o direito de ser feliz e fazer minhas escolhas e de não participar de dramas e jogos que não acredito.
“Mas para isso deve entender que há conseqüências desta postura nova. Você se liberta, ganha pedaços seus de volta, cresce, renasce em poder e tranqüilidade. Desperta em amor próprio. Mas, cada um que perde os pedaços que você recuperou, sente dor. Não podem ainda ver e se sentem lesados. Culpam e julgam. Isso é inevitável.”
Senti uma dor fininha e profunda. Não há como ser totalmente feliz. Aqui neste mundo a felicidade é conquistada no tapa, na raça, mesmo que traga alegria e leveza. Temos que desbravar nossa liberdade, escancarar nossas escolhas, defendê-las com atitude e certeza. Nem todos vão concordar. Dependendo da história e de quanto nos espalhamos pelos que amamos, muitos não irão concordar.
Mas senti um instante de sabedoria. Todos que não concordam são exatamente aqueles que não se importam com a minha alegria. São aqueles que priorizam seus próprios sentimentos. Eles são auto-focados demais para participar.
“Que fiquem em seus mundos então...”
Era exatamente isso. Mundos diferentes, como tantas e tantas mensagens nos disseram e hoje é apenas verdade a ser vivida. Multidimensionalidade.
No mundo que escolhi, sou responsável por mim e pela minha felicidade. Não posso esperar que me ajudem ou facilitem para mim. Cada um faz o que quer e colhe seus frutos. E planta de novo. Roda da Vida.
No mundo que escolhi, vejo todos como iguais em poder e merecimento. Ninguém é melhor ou pior que ninguém. Inclusive eu mesma.
No mundo que escolhi, as regras são as mesmas para todos e espero e exijo para mim exatamente o que dou aos outros. Ordem e justiça plenas.
No mundo que escolhi, Amor é uma estrada de duas vias, não necessariamente iguais em tipo ou tamanho, mas em entrega e valor. Amor é doação recíproca e livre. Nada fora disso vale.
E no mundo que escolhi tudo gira em torno do Amor. Todo sentimento falso que etiquetam como “amor” para fins aleatórios, não me diz respeito. É só.
Eu não preciso mais dos meus medos. Eu posso liberá-los em Paz. Posso entregá-los a um passado necessário para meu crescimento e iluminação. Não tenho medo de justiça alguma, e isso me faz muito bem. Meu medo da reação das pessoas era meu último degrau de carência afetiva e dependência.
A verdade é que não vou agradar a todos. A verdade é que vou ver pessoas a quem me dediquei profundamente me julgando e condenando, enquanto nem se atrevem a olhar nos  meus olhos para perguntar como me sinto. Elas foram minha prisão. E minha caminhada ao crescimento. Tenho gratidão por elas. E me liberto.
Entrego ao vulcão da Mãe cada pessoa, devagar, uma a uma. Entrego as dores que senti, as alegrias, as decepções, as tristezas. Não importa agora o que elas sentem. Sou grata e levanto vôo novamente em direção ao meu querido oceano...o mar de mistério e possibilidades.
Há um mundo inteiro lá fora a ser desvendado. Um mundo de justiça, de reciprocidade, de carinho e amor verdadeiros. Há pessoas com vontade de se conhecer e de ajudar, de trocar e cooperar, de viver em parceria e alegria. São minhas irmãs.
Todos os outros mundos não são mais meus. Não desejo nada a eles, apenas luz. Estou partindo e serei apenas uma lembrança dentro deles. Que sejam o que necessitam ser, assim como assumo minhas escolhas. É tudo apenas vida. Pura Roda da Vida.

E aos poucos terei noção deste novo chegando.... e não estarei só. Nunca mais.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parar ou seguir...


A estrada continuava. Enorme, escura em alguns trechos, ensolarada em outros, sinuosa e enigmática. Eu sigo, assim, meio sem jeito, pé depois do outro, tentando não tropeçar.
Não que eu tenha medo, mas meu dedo esfolado, ou o raspão no joelho, me dizem que algumas surpresas não são fáceis de lidar. Mas sigo.
Em alguns momentos imagens belíssimas me presenteiam com perfume, cor, vida e esperança. Raios de sol por entre as frondosas árvores, lembrando como a luz chega onde quiser quando damos passagem. E quando chega, deixa visível um mundo a parte: folhas, flores, sementes, insetos coloridos no chão. Encanta.
Distraio meus pensamentos então, saio da paisagem real que me acolhe, e voo para meus receios e dores, que inevitavelmente insistem em chegar. Rapidamente uma nuvem cobre a Luz. Não vejo mais nada -  nem insetos, cores ou mesmo os perfumes, que parecem se perder. O mesmo caminho maravilhoso e tranqüilo se torna denso, profundo, duvidoso e desafiador.
Respiro. Olho para todos os lados, e a penumbra só aumenta. Quanto mais penso no que ela pode engolir ela se adianta e me dribla. Paraliso. Estou no breu.
A estrada. Eu e ela. Não há mais nada. Voltar não me parece lógico, pois, se parti, é porque não quis ficar. Seguir me parece perigoso demais sem enxergar meus próprios pés.
Neste momento penso que é exatamente esta dúvida que assola almas e almas nesta estrada sem fim. Como seguir, se já temos calos e cicatrizes? Como dar passos se a visão nos falha, nos abandona às vezes? Paramos. Simplesmente paramos e perdemos momentos e momentos questionando se deveríamos ter partido, quem deveríamos ter escutado, o que não deveríamos ter desejado. Paramos.
Pensamos várias vezes no passado, nas frases, nas conquistas. Lembramos de coisas que nem demos tempo suficiente para apreciar. Sentimos culpa. Entristecemos. E continuamos parados.
Congelamos. Adoecemos. Maldizemos nossas escolhas. Culpamos outras pessoas que poderiam ter servido de lanterna ou placa de direção. Ou quem nos serviu de âncora e nos afundou. E continuamos parados.
Em um dado momento, todavia, paramos de culpar, sofrer, esbravejar ou se perder, e começamos a pedir. Olhamos para o céu e pensamos que, se a luz voltasse, poderíamos voltar a caminhar com segurança. Rezamos.
Rezamos com toda a fé que dispomos, e petrificamos nossos olhares no alto, esperando a tal bênção. Nada. A tal Luz não vem. Aí sentimos raiva, revolta. Ou mais culpa e mais tristeza. Afinal, de quem é a responsabilidade pelo breu eterno? Nossos erros ou o destino implacável e duro? Eu ou o outro? Ninguém responde.
Há gente que pára por aí, e nunca mais consegue seguir. Séculos de estagnação, o corpo dormente, mente paranóica, coração gelado. Estagnação. Inflexibilidade.
Um pavor percorreu minha coluna. Parar. Parar para sempre. Nunca mais sair, aprender, mudar, crescer, renovar. Somente doses e doses de eu mesma, para sempre, igual, rançosa, repetitiva e sem sabor. Mesmas frases, mesmos erros, mesmas desculpas, mesmas reclamações, mesmas explicações, mesmas atitudes, mesmos resultados. Desesperador.
Depois de alguns instantes de pavor nesta imagem, resolvi andar. Não se via nada, o escuro engolia a tudo, e eu não poderia ter certeza de passo algum. Poderia tropeçar. Poderia cair e me machucar. Poderia pisar em algo, até quebrar. Mas nada, nada me parecia pior que estagnar.
Fechei os olhos e lembrei da Luz. Passei minha mente por cada lembrança, cada detalhe que pude lembrar do que ela me proporcionara de beleza e frescor. Sorri, de peito tranqüilo. De alguma forma tudo aquilo ainda existia, em algum lugar. Era só acreditar e não pensar em mais nada.
Um passo. Dois. Dez. Surpreendi a mim mesma por continuar sem problemas. Fixava minha mente em tudo de mais belo que podia reunir em um só pensamento.
Foi então que senti uma brisa quente. Depois um canto suave. Abri os olhos devagar.
Estava tudo ali. Perfeito. As cores, as flores, os insetos, os raios de luz. Era exatamente o mesmo lugar que caminhei no breu. E era perfeito. Olhei para a Luz delicada, banhando cada folha, iluminando minha pele, e sorri.

Não importa se estamos bem ou tristes, fortes ou fracos, certos ou duvidosos. Tudo o que precisamos está sempre, exatamente, ali, a um passo de onde estamos parados. A única coisa que nos separa da luz é a força da nossa vontade, a certeza do que queremos acreditar. A força está dentro de nós mesmos.
Pense Luz e verá luz. A sua luz. É ela que na verdade, ilumina o caminho.
O céu... bom... o céu na verdade é uma escuridão sem fim, um mistério apaixonante e maravilhoso. É só levar a lanterna do seu coração na viagem. Simples assim.










segunda-feira, 15 de abril de 2013

Pastel, valores e liberdade


Conversa séria.

A desculpa foi o pastel. Fazia tempo que não dava certo o tal encontro.
Sentamos à mesa que ficava na calçada (estava um frio de rachar!) e ocupamos nosso tempo falando de vida (e não da vida, o que é bem diferente...).
Pastel ficando para depois, falamos sobre nossos “velhos tempos” e sobre nossos “desafios de hoje”. Sobre como é difícil seguir sem cair. Sobre injustiça e sobre paixão. Sobre como é complicado ser simplesmente feliz.
O mais engraçado foi quando nos olhamos de repente, e juntos sentimos que hoje é complicado para qualquer um.
Para nós, filhos de pais tradicionais, inflexíveis, que às vezes bebiam um pouquinho da água da repressão para manter a ordem, é complicado. Para nossos amigos livres, rebeldes e avessos às regras, filhos de pais liberais, é complicado. Hoje, todo mundo, de ambas as tribos, vive amores, dissabores, buscas e dores.
E a aura em comum que sustentava nossa sintonia perfeita perguntou finalmente: afinal, de quem é a culpa por estarmos em um momento tão sem rumo, cheio de conflitos, dúvidas e dor, na nossa geração? A falta de liberdade ou a de responsabilidade?
Tive uma infância lotada de valores. LOTADA mesmo, tão lotada que não conseguia sequer andar sem esbarrar em algum. Eles me estruturavam e davam a sensação de proteção e acerto, mas, com o passar do tempo e da vida, percebi que me limitavam, me prendiam, me sufocavam, e escolhi conquistar minha liberdade com a maturidade, mesmo que através da dor.

Ao meu lado, entretanto, sempre houve amigos dotados da mesma liberdade tão desconhecida para mim. Liberdade de pensar, de agir, de expressar. Uma ausência total de limitações. Estas pessoas me incomodavam. Durante grande parte da minha vida eu alternei entre momentos de fúria pelas inconseqüências que geravam a eles e aos outros, e momentos de pura inveja por sentir que para eles tudo era possível, e toda experiência, permitida. Achava-os egoístas, imaturos, irresponsáveis, desrespeitosos. E eles tinham preconceito de mim. Achavam-me presa, medrosa, sem expressão e sem graça. Uma chata.
Eu sempre senti esta separação. Eram os “dois lados da força”.
Mas ali, enquanto enrolava para escolher o pastel, um pedaço de magia aconteceu. Pela primeira vez, senti no fundo do coração, uma igualdade perfeita entre todos nós. E foi bom.
É tão obvio! Somos todos vítimas de um mundo dual e caótico que sempre aceita um lado para rejeitar outro, criando realidades parciais e duras, gerando preconceito, separatismo e dor.
Eu tinha puro preconceito dos meus amigos livres. E eles de mim. Quem ganhou e quem perdeu? Quem está melhor ou pior? Quem contribui mais para um “mundo melhor”?  Pura mania de comparação...
A resposta é simples: ninguém. Tive valores, mas sem liberdade. Outros tiveram liberdade, mas sem valor algum que a estruturasse. Troca de seis por meia dúzia...
Alguns se divertiram mais, ousaram mais, mas o vazio dentro de suas almas gritava cada vez mais por algo que fizesse sentido, algo que os guiasse através de tantas opções permitidas. Outros seguiam regras e dogmas respeitados de maneira sagrada, e pensavam tanto para fazer o certo, que realizaram metade do que queriam, senão menos, e se frustraram a cada dia.
A liberdade sem valor não sustenta o ser, e algum dia irá preencher suas angústias com drogas, bebidas, compulsões, ou violência. Os valores sem liberdade deprimem quem os carrega, e para sobreviver na prisão que os cerca, lançam mão de anti-depressivos atenuando o sufoco. No final, acabamos todos atrás de analgésicos para nossas dores de alma.
E seguimos, imbecilmente, insistindo nas velhas questões utópicas. O que é melhor?  Ser da esquerda ou da direita? Ser aceito ou se aceitar? Rebelar-se ou se adequar?
A primeira resposta cabível é “Você não precisa escolher”. Algo sempre estará excluído, e as dores geradas serão iguais...
Conquistei uma liberdade sofrida e batalhada, mas foram meus amigos livres que me inspiraram. Foi olhando para eles que soube que ela existia. Assisti, entretanto, vários membros desta classe sem limites, questionando seus passos, e buscando amparo ao lado daqueles que tanto disseram não para a vida. Talvez porque tinham algumas respostas que facilitavam as suas escolhas, talvez porque o tal excesso permitido nunca havia resolvido nada. Talvez porque abrir mão de algo, de alguma forma, alivia. 
Bom, finalmente pedimos os pastéis. Os sabores de sempre. Não se deixa de ser tradicional de uma hora para outra...
Na despedida, senti gosto de quero mais. Olhei feliz para ele, na motocicleta, com cara de liberdade, falando de tudo que ainda quer provar. Saí então, comovida, pensando que um mundo temperado seria tudo de bom. Simplesmente assim. De tudo um pouco.
Precisamos de regras. Mas precisamos de liberdade para questioná-las. Questionando, podemos quebrar a cara sim, mas, ao contrário, podemos quebrar a regra. Vamos ganhar experiência. Ou criar novas regras.
Por outro lado, sem regra alguma, poderíamos quebrar a cara demais, desnecessariamente, perder o foco, e não encontrar mais o caminho de volta.
É este meu conselho para quem quer educar os novos cidadãos do mundo. Tempero. Valores + Liberdade.Limites e conhecimento. Só isso garante escolhas conscientes.

E escolher conscientemente não é garantia de acerto. É garantia de aproveitamento total do erro, se houver. E de superação.
Não parece que a dor fica de fora? É o que senti. Nada de culpa. No lugar dela, reação e atitude. Acho que seria o fim dos vícios. Do tráfico. Ou da violência. Ou dos anti-depressivos tarja preta. Ou da droga de separação de castas no colégio...
Voltei iluminada.
Pois é, meu amigo. A gente deveria comer mais pastel...

terça-feira, 9 de abril de 2013

Bicho de mulher


Fiquei esperando uma resposta. Sentei na cama, silenciosa e atenta, esperando uma resposta.
Pensei nas milhares de considerações que expressei, nas centenas de perguntas que fiz, nos milhões delas que apenas pensei, mas não disse, para não parecer tagarela demais. Achei que falar por quarenta minutos bastavam, acho que me fiz entender.
Arrumei o cabelo de vários jeitos, tentei me lembrar se existiria um preferido dele, mas algo desviou meu pensamento e me lembrei de mais cinco perguntas. Não disse, afinal, não quero ser ansiosa.
Ansiedade por quê, afinal? Para que ficar ansiosa se sou eu mesma, apesar de qualquer resposta que desse? Para que me consumir se sou uma mulher independente e corajosa, capaz de fazer meus sonhos se materializarem por meu próprio mérito? 
Arrumei o lençol bagunçado, afofei os travesseiros e revi meu cabelo. Bendito. O esmaltes das unhas dos pés não estavam lá grande coisa... puxa, como eu queria escutar uma resposta.
Olhei as fotos da parede, lembrei de um tempo onde as conversas era intermináveis ao telefone, onde eu nem precisava perguntar. Fluía. O que eu não escutava, por alguma razão, eu sabia. Onde isso foi parar?
A demora começou a me cansar, mas eu estava decidida a ser controlada e madura, e esperar. Deitei na cama, amassei minha roupa nova, e suspirei fundo para não pirar e perder a razão.
Mas que bicho é este desnaturado que come as entranhas de uma mulher quando ela espera algo que não vem? Ele sobe, desnorteado, ali do ventre borbulhante, e faz uma revolução no corpo até atingir o peito. Engulo o bicho de novo. "O pior é quando ele sai pela boca..."
Eu só queria saber. Eu queria escutar sobre o que ele sentia, o que achava dos sentimentos que derramei. Eu queria um norte para traçar meu mapa. Eu queria um farol confiável para me guiar. 
Espichei meus ouvidos então, para investigar a tal demora. Ou escutar a TV. Bendita.
O bicho começou a ficar fora de controle. Voltou para a goela poderoso e respirei como na aula de yoga. Profuuuuundo... Melhorou.
Como é que podia ver TV? Como me deixou esperando sozinha? Por que homens não tem bichos internos?
Andei pelo quarto em círculos. O bicho querendo sair. Prendi o cabelo em um coque. Dane-se o cabelo. 
Fiquei ofegante e pedi ajuda. Lembrei das leituras, das meditações e dos ensinamentos. "Equilíbrio..."
Com o bicho é mais difícil... Perguntei a mim mesma o que deveria fazer. Mas que droga. Mais perguntas. Não precisava de perguntas. Eram respostas que eu buscava desde o início!
O bicho já quase me convencia que poderia colocar ordem naquele barraco todo, rapidinho. Era só deixar...
Sentei com as mãos sustentando a testa, em pleno desespero, quase derrotada. As respostas não viriam. A minha espera foi uma idiotice sem igual, minha força descomunal em controlar minhas palavras, em respirar equilíbrio...tudo em vão. Gastei minha preciosa paciência a toa. Que droga. 
Quis jogar um vaso no chão, como nas novelas, mas não havia vaso algum no quarto. E eu ainda teria que limpar a sujeira... não. Deixa para lá.
Levantei com ar de soberana, arrumei o cabelo e a roupa amassada, e segui, pé ante pé, como já assistira a rainha inglesa fazer. Fui até o sofá, e o vi, adormecido, com o controle remoto ainda na mão. 
Meu bicho surtou. Ele queria sair de qualquer jeito. Na verdade ele queria afogá-lo com a almofada vizinha, mas o impedi, afinal, sou uma mulher madura. Apenas permiti que o chacoalhasse, sem carinho algum, até acordar.
Diante do espanto ele demora alguns segundos para se situar e dá um sorriso burro. Porque apenas homens tem sorriso burro? É impressionante como eles conseguem. Nós temos bichos, e eles, sorrisos burros. Já desisti de entender.
"Tá mais calma?" Bom, eu estava até controlada até agora...
Olhei para os olhos dele ( e para o sorriso burro) por alguns segundos sem falar nada. Eu só queria que fosse importante me fazer ficar melhor. Eu queria que preenchesse meu vazio e meus medos. Eu queria desculpas. Ou palavras de amor que curassem feridas. Eu queria uma vontade louca, mesmo que sem sentido, de terminar aquilo com um beijo exagerado. Eu queria qualquer coisa menos a TV ligada.
Mas eu estudo, sou equilibrada, não me perco. Respirei o bicho de novo e disse para ele, internamente, que não valia a pena. Dei uma virada hollywoodiana de cabelo esvoaçante com olhar de "desprezo ardido". É meu pior olhar. E voltei para o quarto.
Ele veio atrás de mim, perguntando o que foi. Meu, Deus, tudo de novo? Foi a primeira pergunta da noite que desencadeara todas as outras... Nem o bicho acreditou.

Aí ele fez. Pegou na minha mão e me olhou nos olhos. Daquele jeito. Aquele.
"Você disse que não estava querendo me olhar, fiquei lá sozinho até agora, mas eu não gosto de dormir sem você. Posso ficar aqui agora?"
Bom, eu disse isso. Mas era um desafio a ser transposto e não uma ordem. Por que homens são tão complicados? Acho que não valia a pena explicar mais nada, a guerra havia perdido a graça e o sentido em vencer. Disse para o bicho para a gente guardar fôlego para quando precisasse mesmo, mas ele me desprezou totalmente, me achando uma idiota. Droga de bicho.
Puxando meu corpo contra o peito, ajeitou meu cabelo, e sorriu (burro) de novo. Covardia. Por que demorou tanto para responder?
Era apenas isso que eu estava esperando...

Para sempre...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Retomada


Não basta apenas tentar intensamente. 
Não basta se embrenhar em uma causa com corpo e alma. 


É necessário mergulhar sem ressalvas atrás de um objetivo. Ou de um sonho. Porque tudo, tudo, só é conhecido no fundo. No profundo dele mesmo.
A coragem inicial precisa ser forte e decisiva. Acho que até meio burra, para não amarelar. E isso é bom. 

Eu queria tentar, mesmo com tudo contra mim. Mesmo parecendo loucura, mesmo tendo a impressão racional de que sofreria muito. Eu queria tentar. 
Senti a tal coragem no sangue, no ar, na pulsação do coração. Eu queria, eu podia, eu vou. 
Eu fui.
Estranho esta coisa de coragem, pois, ao mesmo tempo que te move, parece que te cega. Ou será que quem acaba cegando é a vontade? Eu não sei. Só sei que mergulhei fundo atrás de uma intenção verdadeira, de um sonho verdadeiro e inteiro, mesmo que imperfeito, e não pensei em mais nada. Segui.
O que não previ foram os percalços. Ou previ, mas subestimei. 

Não previ que me machucaria mesmo querendo o bem. Não previ que compreender fosse cada vez mais complicado e dolorido, e que às vezes tudo parece não ter fim. Não previ que, em algum momento, poderia ficar escuro, e eu sem saber o que fazer. Que poderia me faltar o ar. Eu não calculei a distância que teria que percorrer. Eu apenas queria muito seguir. 
Não fui lógica. Não ponderei as dificuldades no caminho. Não previ dores, fraquezas, decepções. Eu apenas segui.
Foi inevitável. Um dia eu duvidei. Um dia eu senti medo. A força havia diminuído consideravelmente. A alegria havia sido consumida aos poucos, a cada percalço do caminho, a cada recarga do meu motor necessitado de vontade e certeza. De repente, eu parei e comecei a questionar meu empenho e até a minha vontade.
Estava tudo muito quieto. Um silêncio absoluto e uterino. Eu, dentro de mim. Escuro, o mesmo escuro do ventre, onde se sabe tudo sem enxergar. Eu queria enxergar. Ou saber.
Só então lembrei de mim. Eu não havia olhado para mim desde o início daquela jornada. 
Era tanta vontade, tanto desejo, tanta força, tanta coragem... que eu não olhei para mim. E no mesmo instante em que me lembrei, alguma coisa doeu.
Eu ainda desejava muito. Mas parecia impossível seguir. Agora, parada, olhando cada parte de mim, eu não podia mais ignorar meus cortes e arranhões conquistados no caminho. E eu estava fraca. Fraca para continuar. Decidida demais para voltar.
Pensei ter me superestimado. Pensei ter sido arrogante. Ou apenas uma completa ignorante. Ignorante sobre mim mesma. 
Mas eu quis tanto... Era tudo o que eu tanto queria... Um sonho que acreditava poder realizar... mas ainda tão fora do meu alcance. Longe de se comemorar.
O que eu faço aqui sozinha no meio do caminho, entre o antigo frustrante e conhecido, e o novo almejado e duvidoso? Apenas silêncio ao meu redor. Nenhuma resposta.
Meu coração pesou. Ele precisava de paz. Minha alma cansada precisava de certeza. Não havia mais energia para sacrifícios e compreensão infinita. Eu precisei parar.
Olhei para o caminho percorrido e vi gotas de sangue e suor. Não havia sido fácil, apesar de eu fazer parecer fácil para os que olhavam e compartilhavam. Apesar de eu não desistir. Na estrada, eu havia perdido partes minhas, alegrias, sonhos que nutri e foram traídos, certezas que tinha e foram massacradas sem dó alguma, apenas para continuar e encarar a realidade do caminho. E esta realidade, mesmo quando conquistada aos poucos, não me fazia sorrir sempre. Era tortuosa e insegura, parecia me dar, e depois me tirar algo, o tempo todo, sem aviso algum. Frustrante.
Vendo o que via, sentindo o que sentia, finalmente, me cansei. Desisti de entender. Ou de decidir.
Flutuei no escuro, aconchegada pela minha decisão recém encontrada de parar, e fechei meus olhos no breu. Quem era eu afinal? Por que queria tanto tudo aquilo? Será que seria feliz com tanta dor para curar no caminho? E por que tinha dores que não conseguia curar? Valeria a pena seguir adiante, mesmo assim?
E minha alma transbordou em desespero. 
Foi então que chorei. Chorei fininho, bem baixinho, sem ninguém escutar. Chorei uma canção em memória às minhas dores e minha coragem sem fim. Chorei pelas decepções que tive que enfrentar, cada palavra dura que ouvi sem me preparar, pela estrada que fora bem mais dura que pude imaginar. Chorei pelo meu coração aberto que tantas vezes sangrava, chorei pela maldade que espreitava, e muitas vezes pôde me alcançar. Havia ainda muita dor em mim. Era antiga, rançosa e falha. Não significava mais coisa alguma. Mas doía. E eu queria tanto avançar...
Chorando, me acalmei. E sem perceber ao certo como, algo aconteceu. 
Uma luz perfeita cortou o breu do mar sem fim, e chegou certeira ao meu coração. Algo doce e quente me invadiu aos poucos, e pude respirar calmamente, sem dor ou hesitação. Não havia palavra alguma, nem me deu explicações, mas me fez infinitamente bem. 
Voltei a fechar os olhos então, não mais por medo, mas por outra emoção; desejei mergulhar ainda mais dentro de mim e sentir o que me acariciava; desejei me fechar em feto, em semente, voltar à essência de mim mesma, voltar a ter certeza, brilhando naquela luz.
Sentindo equilíbrio na novidade, identifiquei pensamentos brotando na minha mente, sem avisar.
"E se eu desistisse da coragem? E se eu desistisse da força? E se eu largasse meu corpo inerte nas ondas, se flutuasse sem esforço algum, e me entregasse ao meu destino? E se eu parasse de lutar, de desbravar, de buscar, de tentar alcançar, e apenas pedisse uma bênção merecida para minha ama cansada? "
Acreditei. E minhas palavras começaram a ecoar...
“Das profundezas do mundo dos sonhos, do lugar perdido onde a magia reina e que não consigo alcançar, da casa onde a beleza e a alegria são o ar e a fogo da vida, do coração maior que conhece a intenção e o mérito de cada pequeno coração... que a luz venha até mim.  
Que o mundo dos milagres e da magia me encontre. Ele, que flutua entre os outros mundos, dando e tirando, como a Justiça Maior ordena, que me encontre nestas profundezas dos limites que alcancei. Sozinha, já não posso mais.
Que ilumine meus olhos, que cure minhas feridas, que apague minhas lembranças de dor, que liberte minha tristeza, que aqueça meu coração, e faça renascer a minha alegria.
Venha até mim, luz do amor, já que não consigo mais, sozinha, seguir.”


Pedi com todo fervor. Eu seria atendida, pois eu acredito no Amor. E ele veio. 
Trouxe raios azulados, perfeitos, iluminados e precisos. 
Depois as cores, as estrelas, as luzes, as flores, a beleza sutil de tudo que não se pode tocar. Sem que eu dissesse mais nada, emergi, em um só pulsar. O sol brilhava tranqüilo, o vento me acariciava a face, jogando meus cabelos pelo mar. Eu flutuava, respirando o ar salgado com a maior doçura do mundo, e sentia vontade de dançar. 
Uma energia quente e suave tocou minha mão e entrou na minha verdade. Eu me transformei em pura eletricidade de luz. Meu coração disparou, meu sorriso se abriu, e nada mais importava. Eu só conseguia sentir entusiasmo e a imagem que eu tanto aspirava voltou a permear a minha mente novamente em alegria.
"Eu vou conseguir. Sei que ainda falta bastante, mas vou conseguir."

Não basta apenas tentar intensamente. É necessário mergulhar sem ressalvas atrás de um sonho. A coragem inicial precisa ser forte e decisiva. Mas em algum momento, não vai depender mais da sua força ou vontade. Em algum momento, você encontrará seu limite. Nesta hora, não aceite seus pedidos de desistência. Não volte. Não afunde.
Será preciso ter fé. 
Entregar, pedir e acreditar. Invocar a luz que ainda estará escondida no seu ser. Ela sempre existe. 
Será preciso aceitar a magia do impossível, e assisti-la acontecer através de você. Sem julgar.
Se não pode mais andar, peça que te levem. Mas siga sempre, na bela roda da vida, mais uma vez. Sem parar. 

Agora eu sei que posso novamente. Ainda não alcancei, ainda tenho dúvidas sobre o caminho que vou percorrer, mas a dor se foi. Não sei por quanto tempo. Até o próximo percalço. 
Mas quanto valem os sonhos? Quanto valem os meus sonhos? 
O bastante para voltar a seguir. Mais uma vez.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

As borboletas do novo ar


Feliz Ano Novo! Abençoado 2013!
O novo ar traz borboletas. Borboletas azuis, brancas, amarelas, ousadas e faceiras, pedindo para serem amadas e admiradas. Despretensiosas, convidam nossas próprias borboletas a sair do casulo dos sonhos e voar no céu. O novo mundo tem céu azul e limpo, mas um sol tão forte que ainda me cega...
Nunca senti isso antes. Depois de tanto tempo revivendo a roda da vida, entre dores e amores, é a primeira vez em milênios que não sei o que sentir. Ou fazer.
Há coisas belas no ar etéreo, o plano sutil se desmancha em promessas de alegria e realizações. A natureza se refaz em brilho, novas estruturas de energia se deixam admirar. A Terra resplandece, com uma força e confiança que nunca pude assistir. Não que me lembre.
Dá quase para tocar. Mas ainda não consegui.  É como uma vitrine ainda inatingível, um sonho na tela do cinema. “É para mim? Vou poder sentir?”
Sim. É para todos que fizeram parte da história, mesmo sem perceber. O ar transformado é a bênção dos loucos, dos insanos crentes no amor... Mesmo para aqueles que ainda não conseguem senti-lo totalmente.
Fechando os olhos em silêncio, peço com vontade e fé para entender por que. Onde está a trava que não deixa libertar o que voa através da alma em alegria? Será que ainda é dor?
Sempre existiu o culto da dor e do medo, o medo de sentir dor, antigos ceifadores de sonhos e sorrisos, vilões da alegria e vida. Isso eu conheço muito bem. Será que é dor velha, que não merece mais existir? Simplesmente medo infundado, já antiquado, de algo que não existe mais, apenas dentro de mim? Será que ainda não saí da ilusão?
No meu caso, o desconforto se instalou no elemento ar invadido pela água sempre descontrolada do meu ser. Emoções invadindo os pensamentos. Minha respiração tem ficado difícil, tive algumas crises de sinusite, e até meu plexo revirou nas horas críticas. Pura dificuldade em me equilibrar no novo, enquanto enxergo o velho no plano físico ao redor de mim. O que será que sinto?
“Não vamos perder mais nada. Já perdemos tudo para estarmos aqui. Este novo mundo criado ainda invisível e sutil foi conquistado e não dado, e por isso não pode ser levado nunca mais, ele só precisa se materializar através de cada um que acredita e se liberta na sua verdade...”
Alívio na bela voz que me sussurra. “...não pode ser levado nunca mais...”, “...se liberta na sua verdade...”
Perdas. Cansei de perdas. Cansei de decepções. Cansei de frustrações. Cansei de sacrifícios, de lamentos e solidão. Cansei de tristeza sem fim. Não quero mais nada disso.
Cansei de injustiças, de traições, de mentiras e falta de amor. Cansei de acreditar, de investir, de sonhar, de ajudar sempre, de dar sem pedir...e cair. Cansei do modo egocêntrico que algumas almas simplesmente tiram tudo de outras, apenas porque acham que merecem. Cansei de ver um esmagar o outro, justificando tudo com desejos e medos pessoais, desprezando a dor alheia. Cansei muito.
Respirando bem fundo na alma, me olhando de dentro para fora, dando vazão aos meus sentimentos mais escondidos – mas não menos fortes por isso, acho que entendi finalmente. A voz me clareou.
Cheguei à conclusão de que estou é cansada mesmo. Cansada das últimas batalhas, das últimas conversas, das últimas injustiças, traições e decepções. Cansada de esperar o que não veio até o final. E não vem mais. Apenas isso.
Cheguei à conclusão de que cruzei a linha de chegada em frangalhos. Terminei a prova, cumpri minha missão, mas preciso descansar. Foi desgastante demais.
Não que não esteja feliz. Estou, e muito. Como todo guerreiro que vence a batalha, comemorei com entusiasmo a chegada e a conquista. Amo cada nova fagulha de luz que brota nas auroras dos dias, cada centelha de vida desperta nestes últimos meses malucos de trabalho. Estou muito, muito satisfeita. Mas isso não apaga as cicatrizes e o sangue que se perdeu.
Vi na aura da Terra que muitos estão como eu. Não é falta de alegria ou de gratidão pelo que se criou. Não é que não se sente que tudo está a um passo de começar a ter vida. É puro cansaço mesmo. Precisamos de descanso.
Pedi então às entidades da Luz e Amor que me dêem este descanso. Um tempo para que minha energia se recobre, se adapte, se molde e se conecte realmente à esta aura dourada que a Terra agora brilha. Um tempo para que eu faça minhas próprias borboletas voarem. 
Parece que ainda é forte demais para mim, que ainda não as deixei voar, mas sei que é temporário.
Alguns já saltitam e dançam por aí. Já liberaram o cansaço e a dor, liberaram seus sonhos-borboletas e já estão conectados com tudo que é novo, fazendo a diferença acontecer. Abençoados sejam! Que me inspirem!
Como muitos amigos em espírito que se dedicam à iluminação de tudo que é mais oculto, clareando as sombras ao seu redor, eu sempre fui morosa mesmo, limpando os últimos cacos que ficam. Inanna, a deusa que desceu os sete portais do submundo para abraçar os que lá sofriam por qualquer motivo, agora volta lentamente,  um a um, recolhendo em cada etapa um pedaço do que deixou para submergir. 
Depois, com calma, acho que vou tratar cada borboleta de um jeito único e especial, como se fossem pérolas ou cristais, saindo uma a uma, com calma e carinho. Eu sou assim. Eu gosto assim. 
Cada um é de um jeito, cada um escreve sua caminhada da vida com uma poesia diferente, e somos todos belos igualmente. Que assim seja.

Para quem é parecido comigo, saiba que aos poucos recuperaremos nossas belas vestes de luz. A cada dia, veremos mais borboletas da vida nos convidando para algo novo e belo, trazendo nossas próprias borboletas para a matéria e seremos mais aptos a libertá-las com vontade e determinação. A cada novo amanhecer estaremos mais leves e confiantes novamente.  
Para os outros que já voam, continuem a saltitar! Afinal, a natureza não se apressa, nem atrasa. Ela tem seu próprio tempo. Quem somos nós para contrariar…