Megera é a que ousa ter um lugar no mundo, um espaço pessoal criado por ela mesma, e não aceita ocupar mais o espaço que a colocaram, mesmo que tenha sido criado com justificativa em amor, cuidado, medo ou necessidade. Para a Megera isso não importa pois ela só quer criar o próprio espaço e ter ele respeitado como respeita o espaço que os outros decidiram se dar, mesmo que ela não concordasse com muitas escolhas.
Megera é a que diz "não" bem no momento que esperavam dela um "sim", a que existe e resiste, que olha para si quando todos querem desviar a atenção para suas próprias necessidades. Ela se dá o direito de existir inteira sem pedir licença para a dor, preocupação ou problema do outro. Ela negocia com clareza e justiça, não se anula. Megera não quer mais gastar seu tempo apenas cuidando de uma relação enquanto o outro apenas cuida de si mesmo e acredita estar na mesma relação, seja qual for.
Ela não é o que o outro acredita que ela seja, ela é o que ela é.
Megera não acolhe tudo, entende tudo, não oferece mil chances e mil perdões para a mesma falha, não se adapta sozinha, não finge que não doeu, não prioriza a dor do outro sobre a dela, dor que ela sabe que, se ela não priorizar, ninguém nunca verá.
Megera impõe limites, e o mundo não gosta de se sentir limitado, no máximo aprecia criar seus limites em sua própria versão, ignorando que tudo pode ser muito diferente do que as visões ao redor tem a capacidade de entender. Ela não cabe na caixa e não se culpa por isso.
Faz parte do titulo a escolha de não ser manipulada pelo jogo incessante do outro, de tirar dele o tempo, espaço e energia que nunca deveriam ter sido dele na vida dela, e faze-lo receber apenas o que conquista com suas escolhas e mudanças pessoais, e isso gera revolta. A Megera sabe que será maltratada por isso. Mas ela também sabe que o contrário a faz maltratar a si mesma, então fica em paz mesmo na guerra.
Mas a Megera quase nunca nasceu Megera.
O que ela esconde - ou que fingem não ver - é um longo caminho de perdas, dores, traições, abusos, frustrações, um caminho cheio de cansaço por dedicação, compaixão e doação desmedidas para chegar até ali. No passado de quase toda Megera há um longo caminho de boazinha percorrido.
Mas esta jornada sempre chega à encruzilhada final: ser tudo sobre si ou sobre o outro. Tem um momento onde não se pode mais adiar a escolha. Quando ela tem sabedoria, se torna Megera.
Ela nunca mais voltará atrás. Megeras não se arrependem de, finalmente, se escolher.
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